DE ONDE VIM?
Uma Conversa Filosófica Entre Duas Pequenas Criaturas Improvisadas pela Praia e pela Imaginação.
Uma Conversa Filosófica Entre Duas Pequenas Criaturas Improvisadas pela Praia e pela Imaginação.
Estavam entre duas imensidades
Atrás delas, a gruta escura.
Ao seu lado, o grande rochedo voltado para o mar.
Ambos moldados por séculos de vento e sal. Embora separados na aparência, encontravam-se a poucos metros um do outro.
E assim, as duas pequenas criaturas de pedra começaram a perguntar-se:
— Viemos da gruta... ou do rochedo?
A da esquerda era um ser tímido, quase fantasmagórico aos olhos humanos. A marca branca formava dois olhos expressivos, como se estivesse surpreendida ou a observar alguma coisa. Olhava o seu próprio corpo formado por finas linhas desenhadas na areia, como se fossem raízes temporárias.
A da direita era completamente diferente. Mais redonda, mais terrena, quase cómica. A protuberância branca no topo fazia lembrar um único olho enorme.
Da gruta ou do rochedo?
De início, a pergunta parecia simples. As origens costumam parecer simples. As criaturas gostam de acreditar que começam num único lugar, e muito bem definido... um berço, uma fenda na terra, um ventre, um país, um nome. Algo suficientemente sólido para se poder apontar.
Mas quanto mais olhavam, mais estranha a pergunta se tornava.
A gruta não estava separada do rochedo. O rochedo não estava separado do mar. E o próprio mar tinha escavado a gruta, grão a grão, maré após maré, com uma paciência interminável e inimaginável, até para uma pedra.
As pequenas criaturas olharam uma para a outra.
Nenhuma se tinha criado a si própria. Era essa a beleza inquietante da situação.
Eram apenas pequenos fragmentos moldados por forças demasiado vastas e lentas para serem plenamente compreendidas. Pressão e fracturas. Movimento e tempo. Ondas e colisões. Minerais que se aglomeram silenciosamente na escuridão, muito antes de existir qualquer criatura capaz de lhes dar um nome.
E, no entanto, ali estavam elas, de pé na areia, a fazer perguntas.
Talvez a própria consciência comece assim: uma pequena pedra a perguntar-se de onde veio enquanto tudo o que a rodeia parece responder:
— De tudo!
Não apenas da gruta.
Não apenas do rochedo.
De tudo.
A própria gruta e o próprio rochedo eram processos, transformações contínuas.
As criaturas deram-se conta de algo ainda mais estranho.
Se a gruta vinha da pedra, e a pedra vinha de uma terra antiga, e a própria terra vinha do fogo e do pó que vagueava pela escuridão do espaço...
A criatura de um só olho ficou em silêncio por instantes.
— Então talvez nada do que existe tenha verdadeiramente uma única origem.
— Talvez cada ser seja apenas a materialização efémera de um diálogo ancestral. — respondeu a criatura de olhos arregalados.
O mar sabia isto. Por isso nunca deixava de regressar. Por isso continuava a apagar as pegadas e os rastos à volta delas, como se dissesse:
— A origem não é tão importante quanto pensais. Tendes formas e nomes diferentes; fostes moldadas pelo tempo de maneira diferente... mas feitas do mesmo mundo. Tal como tudo o resto. Tudo o resto… tudo...
As ondas continuavam a chegar.
O mar continuava a repeti-lo.
Outra vez.
E outra vez.
Como se a própria Terra estivesse a tentar dizer isto há milhões de anos. Milhões de anos.
Fotos e História
Ana Isabel Pais
Maio 2026
Pedras apanhadas na Paria das Furnas
Fotografadas em Vila Nova de Mil Fontes, Alentejo